Estava a almoçar, quando o telefone tocou:
- Já está! Os corruptos não vão á liga dos campeões! A notícia está em todos os noticiários!
Do outro lado N., um sportinguista dos 5 costados típico, daqueles que ficam mais contentes se ficarem em penúltimo e o Benfica em último, do que se ficarem em segundo e o Benfica em primeiro.
Nem 2 minutos depois, o telefone toca outra vez:
- Estou com pouca bateria, por isso ouve: os corruptos estão fora da champions! A UEFA já decidiu.
Desta vez era H., um benfiquista a sério, daqueles para quem o Benfica nunca joga bem o suficiente.
Durante a tarde, ao ler os comentários nos blogs, alguém coloca uma transcrição das reacções de adeptos ingleses e um deles, diz algo parecido com isto:
"Se um clube inglês fosse considerado culpado de tentativa de corrupção e a penalização fosse a perda de 6 pontos e uma multa de 150 mil euros, eu nunca mais punha os pés num campo de futebol outra vez."
Na mouche!
Porque é disto que estamos aqui a falar: da injustiça gritante que tem atravessado o futebol português nos últimos 25 anos!
Quando N. me deu a notícia, a alegria dele, que era igual à de H. - e à minha - não tinha a ver com clubismo, nem com nada relacionado com futebol. Tinha a ver com o alívio de ver, ao fim de 25 anos, um bocadinho de justiça a ser feita! Tinha a ver com o que chocava o adepto inglês a ponto de o afastar definitivamente do futebol, caso acontecesse no seu país.
Tinha a ver com injustiça e impunidade.
Mais do que alegria, a penalização da UEFA traz uma sensação de alívio a todos os que têm estado atentos ao fenómeno no futebol, nos últimos 25 anos. Acabou a impunidade, acabou a "fina ironia" com que Jorge Nuno Pinto da Costa gozou connosco durante 25 anos! Acabou o mito construído pela imprensa da super-organização, da super-eficiência, do exemplo a seguir, etc, etc, etc, etc.
Hoje o mundo inteiro sabe o verdadeiro segredo do sucesso portista: a corrupção. Só por isso, esta decisão da UEFA já sabe melhor que uma fina iguaria num restaurante de luxo... porque não há sabor mais doce que o da justiça a ser feita! Mesmo que seja só um bocadinho, como é o caso, já dá para respirar fundo e sorrir.
É também por isso, que as reacções da generalidade dos agentes do futebol são absolutamente aberrantes.
Não se condenam os actos, não se exige a punição exemplar dos responsáveis, as pessoas não se demarcam deste tipo de comportamentos... nem sequer se fala da corrupção.
Pelo contrário, louva-se a "argúcia" dos gestores da SAD portista por terem eventualmente descoberto mais um buraco na legislação que lhes permitirá escapar a um castigo, choram-se as "consequências desportivas" que a condenação terá no futebol português e condena-se quem teve o supremo desplante de procurar justiça lá fora, quando ela falhou cá dentro.
Nem uma palavra sobre os corruptos, nem uma observação relacionada com o facto de, desde que o processo apito dourado começou a produzir resultados até hoje, nunca nenhum dirigente do futebol clube do porto ter negado nenhuma das acusações, escutas ou factos constantes do processo, optando sempre - repito, sempre - por recorrer a artifícios jurídicos mais ou menos complexos para escapar à punição.
É que bastava um simples "eu não corrompi o árbitro", ou "ele não foi a minha casa na noite anterior ao jogo", ou até "não é a minha voz que aparece aí na gravação a tratar das putas para os senhores", para se poder merecer o benefício da dúvida, mas não, nada disto foi alguma vez alegado e a defesa assentou sempre em questões técnicas.
É por isso que o vergonhoso e danoso para o futebol português não é a decisão da UEFA, nem é a actuação do departamento jurídico da SAD do porto, ou sequer a questão da forma como se têm aplicado os regulamentos da UEFA.
Vergonhoso e danoso para o futebol português é um clube ter andado a corromper árbitros.
Vergonhoso e danoso para o futebol português é um clube condenado por ter andado a corromper árbitros, ter recebido a anedótica penalização de 6 pontos e 150 mil euros de multa.
Vergonhoso e danoso para futebol português é andarem os jornais todos a discutir interpretações mais ou menos crípticas dos regulamentos da UEFA, em vez de denunciarem a corrupção e se demarcarem dos corruptos.
E é por tudo isto que a maioria das pessoas tem feito o que tal adepto inglês prometia, e não põe os pés num campo de futebol há anos. É também por isso que eu, N., H. e todos os outros doentes que não conseguem viver sem o futebol, respiramos fundo, aliviados, com esta dose de justiça que nos foi servida pela UEFA, mesmo quando ela é pequenina.
É que a injustiça dói!
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