Um Benfica à Eriksson
Como todos os anos acontece, por estas alturas, os benfiquistas enchem-se de brios, esquecem o passado recente e desatam num optimismo exagerado. Somos crónicos campeões da pré-época, antes mesmo dos anúncios depressivos de que o campeonato é outra coisa e lá mais para diante, o realismo substitui o sonho.
Eu não sou nem mais nem menos benfiquista do que os outros. Também sou um sonhador e não perco nenhum dos jogos de preparação. E para mim, são mesmo de preparação: para o que der e vier. Após alguns meses de intenso debate sobre o futuro do Benfica, no plano da sua governação, está na hora de fazer o meu «back to basics». No meu caso, falar de futebol. E dos meus sonhos, como benfiquista.
Olho para este primeiro esquiço do Benfica de Jesus e não me deixo deslumbrar pelo famoso losango de que todos falam. Primeiro, porque não existe losango nenhum, nem nunca existiu na carreira de Jorge Jesus. Na época passada, discuti esse assunto várias vezes com o treinador do Benfica. Enquanto os críticos de futebol, que adora figuras geométricas para complicar as coisas simples do jogo, insistiam no pretenso losango de Jesus no Braga, pacientemente o treinador explicava-me o seu modelo e dentro do modelo os sistemas tácticos utilizados.
O Benfica não joga nem jogará em losango. Olho para o Benfica de Jesus da mesma forma lúdica que olhava para o Braga da época passada, depois das suas explicações. Um guarda-redes – é verdade, o Benfica joga com um guarda-redes, embora, por vezes, isso não seja facilmente perceptível – quatro defesas, um médio defensivo, três médios ofensivos e dois atacantes. Isto será o Benfica de Jesus.
Aquilo a que as pessoas teimosamente chamam de losango, Jesus substitui por uma ideia prevalecente de dinâmica. O treinador oferece aos jogadores uma cana de pesca, mas não vai pescar por eles. Dentro do jogo, os médios ofensivos tomam decisões, puxam o jogo para o lado da autonomia pessoal e descobrem as melhores soluções para desorganizar o adversário. Há apenas uma informação que se mantém sempre pendente nas suas cabeças: na transição defensiva, não pode haver espaços vazios e os jogadores devem estar disponíveis para ocupar o espaço mais perto de si. Isso evita grandes correrias, cansaço e desposicionamento defensivo da equipa.
Tendo nascido na década de sessenta, nem por isso, sou contemporâneo da fabulosa equipa de Eusébio, Coluna, Simões, Torres e outros. Porém, já foi como benfiquista deslumbrado que vi quase todos os jogos do Benfica de Eriksson, no primeiro episódio da sua história pessoal com o nosso clube.
Para os que não se lembram, o Benfica era assim: Bento; Pietra, Humberto Coelho, António Bastos Lopes e Veloso (Álvaro); Shéu; Carlos Manuel, Alves e Chalana; Nené e Filipovic.
Este foi o melhor e mais harmonioso Benfica que vi em toda a minha vida. Não jogava em losango, mas são incríveis as semelhanças que descubro entre o primeiro Benfica de Eriksson e o inaugural esboço do Benfica de Jesus. Um guarda-redes, uma defesa – o lado esquerdo continua a preocupar-me – um médio defensivo que será Ruben Amorim, três médios – Ramires será um jogador características semelhantes a Carlos Manuel, Aimar é um João Alves sem luvas pretas e Di Maria será um pequeno Chalana – o melhor jogador português de sempre, depois de Eusébio.
Recordo igualmente que Eriksson começou a descaracterizar este Benfica de sonho, quando permitiu que João Alves saísse do Benfica e o substituísse por Stromberg. O Benfica ganhou um estilo mais testicular de jogo, mas perdeu graciosidade.
O Benfica de Jesus não joga nem jogará em losango, mas tem uma patente táctica que o aproxima incrivelmente do primeiro Benfica de Eriksson. Primeiro, melhor e mais deslumbrante.
CARDOZO – Pode não ser gracioso a correr, mas é o melhor atacante da Liga Sagres. Vale dez “Falcões” e não precisa de arranjar um trinta e um para resolver. Dizem-me que é lento, mas eu não acho. Lento para mim é o Estado a pagar dívidas. Acho que o Benfica não contratou Cardozo para correr os cem metros. Contratou-o para marcar golos. É a minha aposta para melhor marcador do campeonato.
Não gostei, porém, de ver Saviola a marcar a grande-penalidade contra o Sion. Se foi para dar moral ao argentino, aceito, mas espero que não se repita. Em Portugal, ninguém marca “penalties” como Cardozo. Até hoje, não falhou um único remate dessa marca. Além do mais, Cardozo é a nossa melhor possibilidade – em muitos anos – de voltarmos a ter um jogador do Benfica a ganhar a Bola de Prata. E todos os golos contam, assim como todas as oportunidades de golo que a equipa consiga oferecer ao paraguaio para ele melhor exercer o seu oficio: marcar golos.
Não estou em pensar que o Benfica seja obsequiado com a mesma generosidade obscena que árbitros de Portugal ofereceram a Jardel e ao Sporting, no último ano em que os “leões” foram campeões. Nessa altura, se bem se lembram, em cada jogo do Sporting havia mais grandes-penalidades do que casos diários confirmados de gripe suína em Portugal.
No entanto, mesmo considerando que o Benfica não será tocado pela graça de uma hipotética enxurrada de grandes-penalidades, acho bem que possamos reciclar em golos de Cardozo, as pouquíssimas hipóteses que prevejo que os nossos árbitros possam conceder ao Benfica.
Por isso, repito: espero pela próxima grande-penalidade a favor do Benfica para tirar as dúvidas.
QUIM – Um dos guarda-redes mais incompreendidos da história do Benfica deve ser titular. Porque é o mais equilibrado, porque é o mais sereno e, por fim, porque é o melhor de todos. Vejam bem as fotografias dos três últimos títulos do clube e reparem no guarda-redes. É sempre o mesmo, é sempre Quim. Taça da Liga, Supertaça e Liga portuguesa.
Aceito a opinião de outros benfiquistas mas daqui não saio: Quim é o melhor guarda-redes do Benfica e é o melhor guarda-redes português da actualidade.
Não há nenhum guarda-redes do Mundo que não tenha um “frango” dentro de si, que ganha vida própria quando menos se espera e aparece a cacarejar sobre a linha de golo. O Quim não escapa a essa segunda natureza dos guarda-redes, mas mais do que ter um “frango” dentro de si, ele tem é um “galo” enorme com a maioria dos adeptos do clube. Mesmo assim, apesar da contestação, ele é o melhor. E estou completamente convencido que Jesus não precisa de nenhum milagre na baliza. Tem o Quim.
FALCÃO – Por curiosidade, acabou por ser Pinto da Costa, o autor do melhor movimento de mercado do Benfica, nesta pré-época. Gastar quase cinco milhões de euros num suplente de Cardozo, seria um dispêndio de dinheiro. Um bem-haja ao presidente do FC Porto e ao seu passatempo preferido de esturricar milhões de euros em jogadores que ele se ufana de desviar do Benfica para a cidade do Porto.
Também, de notar, que Falcão ainda se arrisca a trocar o FC Porto pela TVI, de José Eduardo Moniz. Depois da novela Benfica, o atacante colombiano é, de novo, uma peça central de uma nova e intensa novela. Sim, apesar do pudor de certa comunicação social, é preciso recordar que o FC Porto está para fechar o negócio Falcão há quase tanto tempo quanto a justiça portuguesa tenta extraditar Vale e Azevedo. Eu sei que isto pode parecer desagradável, porque a frágil consciência mediática deste país não acredita muito em falhanços da infalível máquina portista, mas o Falcão já deve estar entontecido com tantos voos falhados para Portugal.
Uma coisa é certa: este, pelo menos, não vai demorar quatro minutos a assinar contrato com o FC Porto.
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