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quarta-feira, agosto 01, 2012

Um Olho À Benfica #57

O meu Benfica!

Peço desculpa de maçar-vos com esta insignificância, mas gostaria de reproduzir aqui, uma resposta que acabei de dar a um grande benfiquista, meu amigo, na minha página do facebook, a propósito da nossa actual divergência sobre o Benfica. Considero que, por estes dias, o Benfica está mais perto do sucesso do que estava há três anos atrás, quando me envolvi num movimento pré-eleitoral, designado "Benfica Vencer Vencer". Esta é a minha divergência com algumas pessoas que estiveram comigo, há três anos atrás, e que algumas delas não conseguem entender. Não conseguem, por exemplo, entender, que a minha agenda nunca foi pessoal e nunca será oportunista. Disse há três anos e mantenho, que nunca procurei um "tacho" no Benfica, pela simples razão de que jamais aceitaria colaborar com o clube numa base profissional, de remuneração. Muito menos de remuneração obscena, como acontece com alguns dos "grandes" benfiquistas que hoje colaboram profissionalmente com o clube.

Este meu amigo, disse que não compreende onde  é que estão os sinais que levam ao meu optimismo, relativamente à nova época e à forma como a gestão desportiva evoluiu no clube, nos últimos três anos. Gostaria de vos deixar a minha resposta, também aqui, para clarificar, de uma vez por todas, que o meu interesse no Benfica, é o Benfica, ele próprio e as alegrias e tristezas que ele me dá.

Segue a minha resposta:

Artur, os indicadores são desportivos, porque o Benfica, nos últimos três anos, ganhou um campeonato e esteve na luta por outro. Esteve nas meias-finais da Liga Europa e nos quartos da Liga dos Campeões. Eu não sou, como sabes, um profissional da crítica. Eu critico o que me parece mal, elogio o que me parece bem. Há três anos atrás o Benfica estava muito mais longe do que está agora de ter sucesso desportivo. Sei que para muitos benfiquistas é pouco, mas vencer campeonatos de hóquei, atletismo, basquetebol e futsal no mesmo ano, indica um caminho e isso satisfaz-me, porque vejo o Benfica a vencer. Não posso desgostar de ganhar só porque não gosto do presidente e de alguns não benfiquistas que o acompanham. São coisas diferentes e é isso que muita gente não percebe. Não gostar do presidente não é a mesma coisa de não gostar do Benfica. Infelizmente, hoje em dia, quem elogia o Benfica é porque é vieirista, quem critica é abutre, parece que desapareceram os benfiquistas. Eu sou benfiquista, jamais serei vierista ou abutre. Sou muito mais benfiquista do que muitos que, oportunísticamente, aparecem no clube ou nas redes sociais, a fingir que defendem o Benfica, porque o que estão a defender é o tacho ou a possibilidade de o ter. Conheço-os bem e nunca terão o meu respeito. A muitos deles, não lhes dou e nunca darei troco, porque são uns imbecis disfarçados de super-polícias dos bons costumes do Benfica. Mas também cada vez menos tolero os que estão do outro lado barricada, porque chegam à inconsciência de criticar tudo o que mexa, mesmo que racionalmente esteja na cara um sinal de crescimento ou até mesmo de mudança. Tu deves saber, porque discutimos isso longamente, há três anos atrás, o que eu quero do Benfica... quero vitórias. Onde muitos espreitam a possibilidade de um tacho, eu quero alegrias. Para mim e para os meus filhos. Poucas coisas me dão mais prazer do que levar os meus filhos e a minha mulher ao estádio, para ver um jogo do Benfica, sem pensar nos vieiristas ou nos abutres, sem pensar nas guerras de bastidores, sem pensar nos crápulas que me insultaram há três anos, ou me ameaçaram por telemóvel. Eu quero saber é do Benfica e do gosto que isso me dá e dá aos meus filhos. Esse é o meu Benfica, essa é a minha praia. ABRAÇO GRANDE.

terça-feira, julho 17, 2012

Um Olho À Benfica #56

PRÉ-ILUSÕES

Três jogos, duas vitórias e um empate depois, já podemos olhar para o quarto Benfica de Jesus e dizer: "Habemus equipa". Francamente, gostei. Estabilidade na composição no plantel, nas decisões técnicas e sobretudo na imagem de competência desportiva que a equipa projectou, em poucos dias.

O jogo com o Lille foi duro, os anteriores serviram o objectivo de dar consistência às opções iniciais de Jesus. Um guarda-redes de elite, dois centrais que juntam a segurança de Luisão à classe de Garay, um lateral direito que não se esgota fisicamente e uma experiência prometedora no lado esquerdo, com Melgarejo. Tem condições, tem qualidade, falta-lhe conhecimento da posição e rotinas defensivas. Não foi verdadeiramente testado, mas ofensivamente esta posição defende as suas características, porque lhe permite estar permanentemente de frente para o jogo.

No meio-campo, Witsel magnífico na posição seis, menos influente numa posição mais adiantada. E sobretudo a confirmação do erro colossal que foi a dispensa de Carlos Martins, na época passada. De resto, Matic, antes de se lesionar, estava a confirmar a sua utilidade, revelando uma qualidade que o recomenda para várias posições no meio-jogo. E, claro, Javi Garcia, o gladiador que todas as equipas precisam, para repor equilíbrios, embora pareça cada vez mais confortável com a bola nos pés e na tomada de decisões, no primeiro momento de construção.

O ataque é uma verdadeira Arca de Noé, perante a enxurrada de soluções técnicas e tácticas. O único jogador que cumpre uma missão específica no plantel é Cardozo. Todos sabem que está na equipa para marcar golos e não para agradar aos adeptos da nota artística. De resto, as soluções estão todas ao alcance da imaginação do treinador. Bons extremos, Ola John e Enzo Pérez podem trazer velocidade e mais diversão, numa zona onde a equipa promete entretenimento e eficácia. Aimar e Bruno César, com estilos diferentes, dão textura e diligência ao ataque, Gaitán e Nolito são a dose de improviso que atrapalha os adversários e depois ainda sobram Rodrigo, Nélson Oliveira e o genial Saviola.

Este é um plantel de luxo, que precisará, apenas, de mais uma opção para a lateral direita e eventualmente para o lado oposto, se Melgarejo não concluir o seu upgrade defensivo com a distinção que se exige a um jogador do Benfica.

Porém, este Benfica é, talvez, o mais completo, harmonioso e sedutor, de todos os que Jesus já preparou desde que lhe ofereceram a Terra Prometida.

domingo, julho 08, 2012

Um Olho À Benfica #55

Entradas e saídas

O Benfica não pode ou não quer contratar, nesta altura em que a penúria tomou conta do futebol português e atacou-o naquilo que ele tem de mais insolente - o despesismo desmiolado com que se contratam jogadores, para manter o mercado activo e sobretudo generoso com a usura dos agentes e a incontinência dos dirigentes?

Mas voltemos ao início, quando este texto prometia uma radiosa e descomprometida análise ao mercado, através de um postigo de actualidade benfiquista. O Benfica quer ou não pode contratar novos jogadores para o seu - como direi? - interminável plantel?

Pessoalmente discordo que sejam os bancos e a crise que estejam a condicional o tradicional despesismo da direcção do Benfica. Acredito mais na necessidade de contratar com rigor, com critério e sobretudo jogadores com um perfil que encaixem mais nas necessidades da equipa do que nos delírios dos adeptos.

Vejam bem, ontem li num jornal que o FC Porto tinha dado uma demonstração de poder financeiro, quando anunciou a contratação de Jackson Martinez, por quase nove milhões de euros. Nesse texto, o seu autor desconfiava que as finanças do Benfica não tolerariam um investimento destes se o clube não efectuasse, primeiro, uma venda. Subentendido, estava uma dificuldade do Benfica em posicionar-se no mercado, resultante de uma insuficiência de tesouraria.

Pois bem, esta análise é ridícula. Não só porque o Benfica, nesta pré-temporada já gastou mais dinheiro em reforços do que qualquer outro clube português, o que desmente as imaginadas dificuldades, mas também porque, em boa verdade, o Benfica - além de um lateral esquerdo - não precisa de contratar mais nenhum jogador, enquanto não vender um dos seus mais valorizados futebolistas.

E isto não tem a ver com dificuldades financeiras, tem a ver com espaço no plantel, com critério nas aquisições e sobretudo porque não há vagas disponíveis no elenco que a direcção está a colocar à disposição de Jorge Jesus. 

Os adeptos do Benfica tem de habituar-se a esta ideia. Enquanto Gaitán, Witsel, Garay ou Javi Garcia se mantiverem no plantel, o Benfica não deve, não tem e não precisa de contratar novos jogadores. A verdade é que o plantel está entupido de quantidade e de qualidade e, claro, não se vislumbra uma mudança nesta estratégia.

Recentemente o presidente do Benfica confidenciou a uma pessoa dos seus conhecimentos que apenas aceitaria transferir um dos seus melhores jogadores, quando tivesse a certeza de que teria um substituto tão bom ou melhor do que o jogador que substituísse. 

Eu sei que não foi assim com Ramires e com Fábio Coentrão, mas acredito que as pessoas aprendem a lição e, por isso, também sou tentado a convencer-me de que terá razão, um amigo meu, sempre bem informado sobre o Benfica, que me garantiu que o clube teria uma grande equipa, na próxima época. Aliás, a bem dizer, se concluir a transferência de Rojo, para a lateral esquerda da sua defesa, o Benfica não terá, o Benfica já tem uma grande equipa. E enquanto não houver saídas no plantel, de facto, não há necessidade de haver entradas.

quarta-feira, julho 04, 2012

Um Olho À Benfica #54

Empréstimos para que vos quero!

O Benfica votou contra a decisão da Assembleia Geral da Liga de não aceitar mais empréstimos de jogadores entre clubes que participem na mesma competição, o que, desde já, impede que o Benfica concretize os seus empréstimos de jogadores a clubes como o Rio Ave, Académica, Olhanense e outros destinos de jogadores excedentes. Calculo que a colocação destes jogadores, para um clube que tem um número quase pornográfico de atletas profissionais sob contrato, significasse a resolução de um problema, que, agora, ameaça tornar-se numa bomba-relógio, numa perspectiva de gestão de expectativas e gestão desportiva.

Por isso, entendo que a SAD do Benfica vote contra, ao lado do FC Porto, outro dos eternos gastadores do nosso campeonato, embora com objectivos diferentes do Benfica, nos seus gastos e na sua estratégia de empréstimos. E é, exactamente por reconhecer que há uma diferença entre as motivações dos dois clubes, na forma como se alinham nas suas estratégias de empréstimos, que tendencialmente sou levado a manifestar a minha simpatia pela decisão que a Liga acabou de aprovar.

Desde logo, porque vai permitir acabar com a “satelitização” de alguns clubes, que, por dificuldades financeiras e visão muito restritiva dos seus dirigentes, aceitam, de forma leviana e pouco profissional, expor os seus planteis e os seus treinadores à exigência de utilização dos jogadores emprestados, numa quase chantagem que chega a roçar a indecência competitiva. A partir daqui sabemos que, todos os domingos e contra todas as equipas, jogarão os melhores e principalmente passa a existir a garantia mínima de que todos os adversários serão reconhecidos de forma igual e não haverá equipas contra as quais se deve levantar o pé e outros adversários, pelo contrário, contra os quais é preciso jogar nos limites da tolerância desportiva e até da violência competitiva.
Paridade entre adversários é o que esta medida vai permitir e, francamente, Benfica e Sporting, por motivos que são conhecidos, podem ser clubes beneficiados por esta nova ordem que se desenha no futebol português a partir da proibição dos empréstimos.

Além do mais, ao contrário do que certos comentadores já peroraram, esta medida defende a formação em Portugal e dos clubes. O que não defende é apenas a formação dos grandes clubes. O mais escandaloso é assistir a dirigentes de clubes de gama média e baixa do nosso futebol a defender a formação dos clubes mais apetrechados, com a alegação de que os jogadores dos “Grandes” emprestados, deixam de ter um espaço de afirmação – o que é mentira – em vez de se preocuparem com os jogadores da sua respectiva formação. Porque, o que deve acontecer é que os clubes passem a apostar mais nos seus jovens jogadores, em substituição dos talentos que agora não podem ser acolhidos. Claro que o cinismo e a incompetência de alguns dirigentes acabarão por resolver o problema com mais estrangeiros e menos formação. Mas depois, escandalosamente, serão os mesmos a protestar contra esta medida, com a alegação que não defende a projecção de novos talentos em Portugal.

Por isso, reforço, esta medida, por um lado, pode prejudicar o Benfica, porque é um dos clubes imediatamente lesados, pelas novas dificuldades que são impostas ao escoamento dos seus jogadores para outros clubes, mas a prazo, acabará por tornar a competição mais saudável, transparente e sobretudo vai trazer uma nova paridade competitiva à Liga de Clubes que deve ser suficiente para tranquilizar os adeptos benfiquistas.
A gestão dos empréstimos e a forma como alguns clubes a usavam para criar vantagens competitivas sobre os outros vai acabar. E isso é uma boa notícia para o futebol português e também uma boa notícia para o Benfica e para a sua luta por um desporto mais transparente.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Um Olho à Benfica #53

Que jogador do "caraças"!

Eu sei que o Cardozo é um dos jogadores menos consensuais da história do Benfica. Mas, juntando aos seus golos, esta desavença histórica que o avançado paraguaio provoca entre os adeptos do nosso clube, é tão divertida como insane. Divertida, porque promete durar até que o desengonçado avançado do Benfica chegue, pelo menos, aos trezentos golos com o Manto Sagrado e insane, porque há coisas que não devia ser permitido a um benfiquista criticar. Proponho para uma próxima alteração estatutária do clube que se redija e aprove um artigo que iniba, proíba mesmo, a crítica pública ou em surdina ao maior abono de família de que há memória nos últimos vinte anos no ataque do nosso clube.

Se o Cardozo não é consensual entre os benfiquistas, como o poderia ser entre os adeptos do futebol e até entre os media desportivos nacionais. Eu sei que o Cardozo não será nunca como o holandês voador do Sporting que já foi colocado no radar do Manchester United quase tantas vezes como o Beto chegou a ser apontado como reforço do Real Madrid. Também não desconheço que o Cardozo não é como o Hulk, que todas as semanas é vendido por cem milhões de farrapos, sendo que o habitual leilão é entre os sheiks das Arábias e o russo do petróleo, mas mesmo assim, eu prefiro o Cardozo.

Não é uma gazela, não é um jogador-passerelle, mas a forma custosa como corre é também a melhor homenagem que Cardozo faz a si próprio, à sua perseverança e à maneira como ridiculariza os seus críticos. Um dos melhores avançados da história do Benfica, cuja embirração de muitos adeptos já nem é para levar a mal, é mesmo para tornar ainda mais festivo cada golo que marca.

Um dos seus críticos é meu vizinho e sempre que passa por mim, zurze mais um pouco no melhor avançado da Liga. Esta manhã, quando me cruzei com ele, disse-lhe o que era costume ouvir na minha terra, quando um jogador suplanta as expectativas..."O Cardozo é bom como o caraças".

terça-feira, outubro 04, 2011

Um Olho à Benfica #52




O Pequeno Genial



Desculpem maçar-vos com um texto mais longo do que habitual, mas passa-se o seguinte. A prosa que a seguir lerão - os mais corajosos - é a introdução do livro que acabei de escrever e que me preparo para editar. Trata-se da biografia do Chalana. Há discussões que não alimento no futebol. Uma delas é sobre quem terá sido o melhor jogador português depois do Eusébio. Para mim, foi o Chalana. Ponto final, parágrafo. O que vos proponho agora é a publicação, em rigorosa e exclusiva estreia da introdução do livro. É uma história ficcional com que resolvi iniciar a minha homenagem ao mais fantástico jogador português que vi jogar - o Eusébio já não pode considerar-se do meu tempo.



Peço desculpa pelo texto longo, mas creio bem que vale a pena, porque é de um benfiquista para muitos benfiquistas e muitos deles nunca tiveram a felicidade de ver jogar este extraordinário jogador. Sinceramente, espero que não levem a mal e que gostem da homenagem prestada a um verdadeiro símbolo da grandeza ímpar do Benfica.



Introdução



A bota do Chalana



Certo dia, numa feira internacional de botas de futebol, estava na montra principal uma chuteira, considerada o último grito da moda futebolística. Uma bota sofisticada, com todo o luxo a que qualquer actual aspirante a craque da bola julga ter direito. Climatizada, de forma a prevenir odores irrespiráveis, dirigível por controle remoto e até com air-bag traseiro, para prevenir as famosas e perseguidas «entradas por trás». Tinha também, no seu exterior, uns sensores laterais que estabeleciam comunicação com a sua congénere mais próxima. Depois de muitos estudos, os autores desta bota inteligente, ruminaram na instalação de um mecanismo de precisão sensorial, que permitisse aos jogadores uma certeira e rápida circulação da bola. Só faltava mesmo mini-bar e pay-tv. A primeira equipa a utilizar estas sensacionais botas foi o Chelsea de José Mourinho, como se sabe, o maior apóstolo do futebol tecnológico. Fanático pelo detalhe, escravo da minúcia, o melhor treinador do mundo ficou fascinado com o alcance imediato desta bota na modificação extrema que provocaria no futebol. É talvez reveladora a sua curta mas demonstrativa declaração de apoio à nova bota: «Assim, até eu seria o melhor jogador do mundo». Pelos vistos, aquelas botas fazem milagres. Ainda babados pela inovação, poucos repararam numa outra bota, na montra ao lado, desprezada pelo tempo e carcomida pela gula tecnológica. Um pecado mortal para a humanidade, uma normalidade no futebol. Tinha um ar pútrido, apresentava uma nítida curvatura que nascia a montante do calcanhar e apenas terminava a juzante da biqueira e era, portanto, uma espécie de pé-descalço das botas de futebol. E no entanto, tinha um brilho intangível, uma aura que a cercava e amarrava os olhos de uma criança, por instantes desviados da quintessência da tecnologia desportiva. O que fariam aqueles olhos, debruçados sobre uma bota velha, arregalados de fascínio, galgando umas lentes grossíssimas que mascaravam a miopia de nascença? Diante daquela bota, aquele par de faróis seriam luzes intensas contra o nevoeiro da sofisticação que baixava aos baldios da tecnologia. O que é verdade é que aquela bota guardava o mistério de uma certa fé no jogo.



De súbito, aqueles olhos escondidos atrás de uma densa amálgama de dioptrias, foram abalroados pela confusão reinante na montra ao lado, onde o cotovelo do mais forte prevalecia sobre o tórax do mais fraco. Seguia-se um concurso, promovido pela famosa marca que apostou milhares de euros na certificação da nova e estupenda bota. Tudo não passava de uma acção infalível de marketing, a que se submetiam dez concorrentes escolhidos ao acaso entre o estimável e babado público. Tudo isto, em directo, com as televisões como testemunhas evangélicas do novo milagre da precisão. Os concorrentes eram simples figurantes da escandalosa delinquência publicitária que seria o anúncio da perfeição no futebol. Estavam todos bem calçados, os concorrentes e os multimilionários autores da bota. O objectivo era acertar com uma bola, a uma distância de cem metros, num buraco de perímetro pouco maior do que o objecto atirado. Missão impossível com uma bota normal, nem mesmo à medida dos maiores super-heroís do futebol mundial. Agora, com esta bota, era quase possível colocar duas pessoas nas extremidades opostas de uma montanha a trocar certeiros e infalíveis pontapés na bola. Incrível. Isto, claro, se nos fiarmos no exagerado texto de apoio inscrito num mailing enviado para as maiores sedes de futebol em todo o mundo.



O concurso começou e ao primeiro pontapé, bola fora do alvo. Inquietação generalizada mas convencimento de que tinha sido apenas um pequeno desvio humano na perfeição tecnológica. Como era possível? Os remates seguintes, mais de cem – já que o número de concorrentes alastrou – confirmariam que o futebol não é para todos nem admite a intrusão dos novos pregadores da ciência robótica. Nem um remate certeiro. Em desespero de causa, já com as televisões desmobilizadas, os cabos recolhidos e os anunciantes em fuga, deu-se uma imagem de epilepsia colectiva. Chegavam, entretanto, reforços: a marca desportiva não se dava por vencida e para provar a eficiência do seu invento, contratou a peso de ouro, Ronaldinho, Zidane e Figo para novo teste. Primeiro, o brasileiro dentudo, gingão e melhor do mundo e arredores. Falhou. Pela primeira vez, Ronaldinho perdeu aquele sorriso cinematográfico. Depois, Zidane, com os dedos dos pés apoiados nas extremidades como uma bailarina, voando para a bola, mas aterrando na crua realidade. Novo e estrondoso falhanço. Agora, Figo, avança determinado, verdadeiro Átila dos campos de futebol, faz a paradinha, engana o público e no momento em que todos esperam o estrepitoso embate com a bola, Figo olha para o lado e suspira. Aqui sim, deu-se um momento de viragem. O craque português faz uma diagonal até à montra ao lado e olha para a bota velha e caduca. Parecia já um tamanco, mas Figo colou o seu olhar no menino míope e viu-se a si próprio, nos anos da sua adolescência. Esse recuo no tempo fá-lo reconhecer aquela bota, já que durante muito tempo não se cansara de a ver. É Figo que se lembra que o último homem a descalçar aquela bota tinha sido um fenomenal jogador chamado…Chalana. O seu ídolo em criança. Aquele olhar de Figo e do menino míope convocam Chico Buarque numa das suas inúmeras definições sobre o jogo: «O drible do corpo é quando o corpo tem presença de espírito». Aquela bota era a casa de todos os espíritos benignos do futebol. Por isso o brilho, a aura. Aquela bota parecia acabada por fora, mas imortal por dentro. Tinha o forro do talento e o suor do génio. Figo não chutou a bola, deixou que fosse o menino míope a fazê-lo. Calçou-lhe a bota velha, que tinha sido de Chalana e milagre, a bola entra, guiada pelos bons espíritos. Para refazer todos os queixos que entretanto caíram, seriam necessários agora vários meses de paciente cirurgia reconstitutiva. Uma bota velha e um menino míope tinham vencido os estúpidos pergaminhos do futebol evolutivo. E melhor do que isso, Chalana voltava a ser o maior. Para que não o esqueçam os que o viram jogar e para que o saibam os que nunca lhe puseram a vista em cima.







PS: Esta é uma história apócrifa mas que não muda o essencial: Chalana foi o maior jogador português de sempre, depois de Eusébio. Por isso, este livro é a homenagem ao meu ídolo de infância. Resolvi escrevê-lo, um dia, quando o meu filho mais velho me perguntou, depois de ter visto o pai, a entrevistar na televisão, o grande Chalana: «Ó pai, quem era aquele senhor que estavas a entrevistar?». Olhei para ele, com aquela ternura com que o habituei e respondi-lhe: “Filho, ouve bem. Quem é o jogador que mais gostas de ver?» Eu já sabia resposta, mas mesmo assim, soube bem ouvi-la de novo: “O Ronaldinho”, disparou o meu filho, com aquele enfado juvenil de quem é massacrado sempre com a mesma pergunta. “Pois bem, filho, quando eu era da tua idade, o Chalana esteve para mim como o Ronaldinho está para ti”. É para isso que serve este livro.





José Marinho

quinta-feira, setembro 08, 2011

Um Olho à Benfica #51

E esta hein?


Estava à espera que alguém o fizesse. Durante semanas tenho espreitado este blogue à procura de uma linha sobre o assunto. Nem mesmo o maior especialista em citações minhas foi capaz de juntar duas frases sobre o tema. Logo ele, que gosta tanto de apanhar as minhas alegadas contradições, que adora fazer gala da sua erudição, mas já nem com ele posso contar. Só me apetece dizer: «Até tu Vieira?» - o Zé, claro.

E qual é o tema, perguntarão os leitores deste blogue.


O tema é o seguinte e sobre o qual eu gostaria de uma palavrinha vossa: ARTUR MORAES.


Lembram-se de tudo o que foi escrito aqui e nos arredores deste blogue sobre mim e sobre o jogador, quando praticamente se anunciou a sua contratação no Mágico?


Pois, se calhar já não se lembram. E depois, porque, se calhar, o Vieira - o Zé - estava de férias, não havia o porteiro do blogue para uma chamadinha de atenção.


Pronto, já desabafei o meu desgosto com todos vós. Quanto ao resto, já sabem, Viva o Benfica.


E até os comemos, como se diz na minha terra.

terça-feira, julho 26, 2011

Um Olho à Benfica #50

PLANTEL 2011-2012


Artur Moraes
Eduardo
Mika

Maxi Pereira Luisão Garay Capdevilla
Ruben Amorim Miguel Vítor Jardel Emerson

Javi Garcia
Matic
Enzo Perez Gaitán
Urreta Nolito
Aimar
Carlos Martins
Bruno César
David Simão

Saviola Cardozo
Jara Rodrigo
Nélson Oliveira

A partir de amanhã, nenhum destes nomes deve ser riscado do nosso mapa sentimental. São os nossos jogadores, formam o plantel do Benfica e, francamente, não envergonham ninguém. Podia ser mais forte, o plantel? Podia. Mas é um conjunto muito credível, em algumas posições mais credível do que noutras, mas o suficiente para nos dar alegrias. Os jogadores merecem que cada um de nós vá à bola com eles. Eu vou e já amanhã. O resto, como dizem os brasileiros, é conversa para boi dormir.

domingo, maio 22, 2011

Um Olho à Benfica #49


Um grande guarda-redes!


É a última vez que escrevo sobre Artur Moraes. Acho que as pessoas compreendem que não devo fazê-lo mais. Não preciso de dar grandes explicações, a não ser que acredito que todos entenderão porque não devo escrever mais neste blogue sobre o novo guarda-redes do Benfica.

Sendo assim, devo aproveitar a oportunidade para dar mais algumas informações aos adeptos do Benfica que pretendam saber mais sobre um jogador que preferiu o nosso clube.

Quando Artur Moraes começou a jogar a titular no Braga, substituindo Filipe, eu entrevistei o Doni, que foi companheiro do novo reforço do Benfica. Primeiro no Cruzeiro, onde foi suplente de Artur Moraes e depois na Roma, onde foi titular.

Acho que é oportuno recordar as declarações que pude escutar do Doni, um guarda-redes de classe internacional e que conhece bem as qualidades de Artur Moraes.

Ninguém conhece melhor Artur Moraes que outro guarda-redes, por sinal, seu antigo companheiro no Cruzeiro e mais recentemente na Roma. O internacional brasileiro Doni aceitou fazer um retrato mais fiel de Artur Moraes, o guarda-redes que Fernando Couto convenceu a vir para Braga. «Trata-se de um grande guarda-redes e um companheiro incrível. Já fui suplente do Artur, quando fomos campeões no Cruzeiro, em 2003, onde ele foi um dos jogadores mais importantes da equipa. Fez uma época notável, distinguiu-se, na altura, como um dos melhores do Brasil e eu não tive grandes oportunidades, porque ele esteve insuperável. Tem grandes qualidades, é muito sereno, muito profissional e distingue-se pela forma como defende a sua baliza. Como é alto, consegue intimidar os avançados e, como nós dizemos, ocupa muita baliza, não sobra muito espaço por onde os avançados consigam meter a bola. É um grande guarda-redes e me surpreendeu que tenha saído de Itália, porque a Roma queria renovar contrato com ele e eu sabia que outros clubes estavam interessados no Artur», declarou Doni. Enquanto no Cruzeiro, Artur Moraes foi o titular, na Roma a situação alterou-se, com Doni a assegurar a titularidade. «A minha titularidade na Roma e depois na selecção do Brasil deve-se, muito, ao Artur Moraes. Quando você é titular de um clube e tem um suplente como o Artur, você não pode relaxar. Porque o Artur, na verdade, não é um suplente, é um titular, é um jogador que está sempre disponível para jogar e nunca se deixa abater pelo facto de não estar jogando. Ele sabe que tem muita qualidade e por isso mantèm-se sempre muito focado, sabendo que a sua hora chega sempre, mais tarde ou mais cedo. Foi assim que conseguiu fazer grandes jogos na Roma, mesmo sabendo que eu era o titular. Mas nunca me senti verdadeiramente o titular da baliza, porque sentia sempre a sombra do Artur a pairar», adiantou Doni.

«O Artur Moraes é um craque na baliza. Eu sei do que estou falando, fui suplente e titular nas equipas em que estivemos juntos e sei reconhecer a qualidade de um guarda-redes. É um jogador habituado a grandes ambientes, mesmo na Europa, jogou na Liga Europa e na Champions, foi campeão no Brasil. Então, vai ter medo do quê? Estou torcendo pelo seu sucesso», confirmou Doni.


Entretanto, nem de propósito. Hoje mesmo, o jornal O JOGO, publica declarações de outro antigo companheiro de Artur Moraes, no Cruzeiro. Trata-de Cris, defesa central do Lyon. Vale a pena lê-las:

Artur está confirmado como reforço do Benfica para os próximos quatro anos e se as exibições realizadas com a camisola do Braga deixaram tudo e todos impressionados, Cris, central do Lyon e antigo colega do guarda-redes no Cruzeiro - onde ambos partilharam o balneário com... Luisão -, acredita que o clube da Luz "acertou na contratação". "O Artur voa como ninguém. Lembro-me de que já na altura em que jogávamos juntos no Cruzeiro, uma das grandes qualidades dele era a forma como saía da baliza para ganhar a bola aos avançados", afirma a O JOGO, reforçando: "Não tinha medo. Era fortíssimo nas bolas aéreas e passava muita confiança aos defesas."

Agora, vou cumprir a minha promessa. Não voltarei a escrever, neste blogue, sobre Artur Moraes.

domingo, maio 15, 2011

Um Olho à Benfica #48

Um blog à Benfica


A quase noticia que publiquei no meu último post neste blogue, inaugurou uma nova intervenção na blogosfera benfiquista, que pretendo desenvolver neste espaço. Apesar de ter sido acusado de muitas coisas, por muitos benfiquistas, que leram no meu texto palavras que não escrevi - como por exemplo, reforço sonante - e de me ter sido levianamente atribuída uma intenção de me colocar em bicos de pés, eu arrisco nesta forma de interagir com outras pessoas que partilham do mesmo afecto clubístico e que possam encontrar neste blogue, um espaço de debate, mas também de noticias, de entrevistas e de reforço da sua ligação com o Benfica.


Por isso, gostaria, hoje, de escrever sobre um reforço do Benfica para a próxima época, que os adeptos menos informados ainda não descobriram, talvez porque não tenha um nome sonante. E como os adeptos do nosso clube gostam de grandes estrelas. Claro, não é Forlan, não é Diego ou outros putativos reforços do clube que preenchem o imaginário benfiquista. É André Almeida, jovem internacional sub-21 e que o Benfica acertadamente contratou.


No site oficial da Desportimedia - a minha empresa de agenciamento de imagem e de comunicação - pode-se encontrar um texto com declarações do treinador João Carlos Pereira, ex-treinador do Belenenses e responsável pela projecção definitiva do jogador como titular do clube do Restelo, na época passada.


Acho que é um texto que merece ser replicado neste blogue, até porque considero que é do interesse dos benfiquistas, conhecer melhor um jogador de grande talento, de enorme futuro e que pode ajudar a que Maxi Pereira encontre um novo espaço na equipa, no meio-campo, substituindo finalmente o brasileiro Ramires.


Este é o texto:


«É uma grande contratação»



A contratação de André Almeida, pelo Benfica, pode ter surpreendido pela rapidez e pelo inesperado, mas não apanhou desprevenido o treinador João Carlos Pereira, actualmente a treinar o Ermis Aradippou, no Chipre. Na época passada, o treinador português foi o responsável pelo rápido aparecimento de André Almeida na equipa principal do Belenenses, onde começou a dar nas vistas e a jogar regularmente. O antigo treinador do Belenenses apostou em alguns dos jovens da formação do clube e a sementeira de João Carlos Pereira começa, agora, a dar os seus frutos. Sobre a transferência do jogador para o Benfica, o treinador aplaude. A decisão do Benfica e a escolha do jogador: «É uma grande contratação que o Benfica faz. Trata-se de um jovem, ainda, com muito para aprender, mas com o potencial para se transformar num jogador de top. Para o Benfica não é uma aposta muito arriscada, porque, de facto, é um jogador muito talentoso, competitivo e de muita qualidade táctica. Para o jogador, a escolha é muito boa, porque se trata do Benfica, um clube que tem um treinador que está a potenciar bastante os seus jogadores e acredito, fará o mesmo com o André Almeida. Apesar da sua juventude, está preparado para o desafio de jogar num clube como o Benfica, porque tem uma cabeça boa, é muito positivo e não se deixa influenciar por factores de ordem externa. Além do mais é uma excelente notícia para o futebol português, porque é o regresso de um clube como o Benfica ao mercado nacional e à contratação de um jovem com grande potencial», declarou João Carlos Pereira, ao site oficial da Desportimedia.


Além da sua qualidade, André é também um jogador de grande polivalência. A época passada, foi utilizado como médio-interior, mas mais recentemente, na selecção sub-21, André Almeida é uma opção indiscutível como lateral direito. O seu antigo treinador confirma essa capacidade de jogar nas duas posições: «Pode fazer, sem dificuldade as duas posições. É um jogador multi-funcional, muito dotado tacticamente e pode ser um lateral de grande qualidade. Na época passada, experimentei-o, várias vezes, como lateral direito, porque vejo nele qualidades muito interessantes para se afirmar nessa posição. É um jogador sereno, que aprende depressa e será, sem dúvida, uma grande contratação para o Benfica», terminou João Carlos Pereira.


O treinador do Ermis também destacou a qualidade do internacional sub-21 português, em declarações à Antena 1.


Ouvir as declarações aqui.

quarta-feira, maio 11, 2011

Um Olho à Benfica #47



Um novo reforço, uma grande vitória



Nos próximos dias o Benfica deve fechar a contratação de um jogador que confirmará a declaração do presidente do clube, quando prometeu que as contratações seriam mais rigorosas. Uma contratação que terá um significado especial para mim, porque se trata de um jogador de grande classe, que resolverá um problema ao Benfica e ao treinador e porque se trata de um amigo.


Pessoalmente, empenhei-me em influenciar o jogador a tomar esta decisão. Não foi fácil, porque teve uma proposta absolutamente louca da Turquia e outros convites importantes, da Inglaterra e…Portugal. Durante semanas discutimos o que seria melhor para a sua carreira até chegarmos ao ponto deste jogador ser confrontado com uma proposta do Benfica. Posso garantir que não demorou quatro minutos a aceitar, nem três segundos. O jogador já estava identificado com a história do clube e sobretudo com a cultura do clube e a importância de ser jogador do Benfica.


A contratação ainda não está fechada e no futebol, como sabem, as coisas mudam com facilidade. Porém, desta vez, tenho de elogiar a intervenção do presidente do Benfica, porque a decisão de o contratar é sua. Durante várias semanas, o treinador Jorge Jesus foi sendo sensibilizado para a sua contratação, mas foi Luís Filipe Vieira que arrepiou caminho. O presidente do clube está pessoalmente empenhado nesta contratação e se depender dele, acredito que ela não falhará.


Será também uma vitória anímica do Benfica sobre alguns dos seus adversários em Portugal. Uma contratação que representa o prestígio que o clube ainda mantém e que ainda é suficiente para atrair jogadores deste nível, apesar do assédio importante de outros clubes.


Perante isto, espero desmontar a ideia de que persigo algo que nunca esteve na minha cabeça. Não é a primeira vez que presto um serviço ao Benfica e não será a última. Nunca procurei um tacho no clube, o que espero são vitórias. A minha oposição ao presidente do clube não é pessoal, é crítica. E não me impede de torcer pelo Benfica e de prestar um serviço ao clube. Como sempre disse não confundo benfiquismo com vieirismo. E se tiver de o elogiar, elogio. Se tiver de o criticar, critico. Desde o dia 25 de Abril de 1974, vivo num país livre e democrático.

sábado, abril 30, 2011

Um Olho à Benfica #46

A final de Dublin

Existe por aqui um certo anónimo que mistura factos com hipocrisia para chegar a uma verdade inconveniente. A de que o FC Porto é a melhor equipa portuguesa. É um facto que actualmente não se presta a sofismas mas também não escapa a uma memória concreta das coisas. O Benfica hipotecou as suas aspirações no campeonato, graças a duas arbitragens vergonhosas em jogos cruciais.


Em Guimarães, o suficiente para entregar o título à quarta jornada ao FC Porto e, mais recentemente, em Braga, demolindo com as hipóteses ainda residuais que o Benfica mantinha de ser campeão. Esta derrota não acabou apenas matematicamente com as possibilidades do Benfica ser campeão, cavou um fosso anímico profundo entre um Benfica com 18 vitórias consecutivas e que ameaçava o domínio portista no campeonato, principalmente porque se aproximava o jogo da Luz com o FC Porto e a réplica cansada e desmotivada que se lhe seguiu. O anónimo dirá o que quiser e o que seu fanatismo clubístimo o permitir, mas existe um Benfica antes do jogo com o Braga e outro Benfica depois do jogo com o Braga. Antes de jogar na Bracara Augusta, o Benfica era, de facto, a melhor equipa portuguesa, a que vencia os seus adversários, os do seu campeonato com aparente facilidade e os outros com aparente indiferença. E por muito que o anónimo queira revisitar os factos, a verdade é que esse Benfica ameaçava ser imparável até ao final da época. Por isso, a recomendação superior de que era necessário travá-lo, fosse de que forma fosse. E, naturalmente, se isso não tem acontecido, estariamos nesta altura a discutir uma realidade diferente.


E, parecendo contraditório, é por isso que tenho uma enorme convicção de que vou estar em Dublin. Porque a UEFA não vai nomear para a segunda mão o Carlos Xistra ou Olegário Benquerença e, como se viu, no estádio da Luz, com um árbitro indiferente aos costumes nacionais, as hipóteses do Benfica ser bem sucedido aumentam exponencialmente. E isto é válido para o jogo da meia-final, onde estou convencido que o Benfica alcançará, não apenas o apuramento como um resultado ainda mais volumoso do que o se verificou no estádio da Luz, como também é válido para o jogo da final.


E aqui, dificilmente compreendo certos benfiquistas. Como se comprovou na recente final da Taça do Rei, num jogo deste tipo não há favoritos. Muito menos, numa final onde o FC Porto não é o Barcelona - por muito que um certo jornal desportivo se esforce por fazer essa comparação - nem o Benfica vai preparar a sua final de Dublin de uma forma tão reactiva como o Real Madrid o fez. Temos de reconhecer que o adversário é forte, está a jogar bem, mas não é inacessível e tão pouco a diferença entre as equipas justifica um infundado receio. É um jogo, podemos ganhar, podemos perder. E não esqueçam, em Dublin, não há túneis, não há galinhas, não há clima de terror, não há bolas de golfe e não há Xistra. Há um estádio, há uma bola, um árbitro isento e duas boas equipas de futebol. Afinal como devia ser sempre. E no final ganhará o melhor.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Um Olho à Benfica #45

Sinais do tempo

Sinal verde (salvo seja) - A equipa, o treinador e os adeptos. Existe um crescimento na equipa, uma renovação no treinador e uma esperança nos adeptos. Não sei, porque não consigo antecipar o futuro, se o Benfica ainda irá a tempo de corrigir o miserável início de época. Foram cometidos erros, o maior dos quais, foi ter pensado que as camisolas ganhariam os jogos pelos jogadores e que a inércia do FC Porto - dentro e fora dos relvados - se manteria.

Isso não aconteceu e enquanto o Benfica era prejudicado pela sua soberba e pelos árbitros, o FC Porto amealhava o que lhe era dado por uma conjuntura favorável, entre as benesses da arbitragem e a fanfarronice dos principais adversários.

A verdade é que o Benfica sempre teve um plantel, desde o início da época, com a qualidade compatível com um campeão que pretendia defender o título alcançado. E que sempre manifestei, neste blogue, que explicar o insucesso inicial do Benfica com as saídas de Di Maria e Ramires era o mesmo que tentar ver um filme em 16.9, num formato de 4.3. Ou seja, não estavam a ver o filme todo.

Ainda bem, a equipa cresceu, o treinador ressurgiu da inqualificável campanha interna que lhe moveram, com notícias estrategicamente colocadas em alguns meios de comunicação social mais vulneráveis a pressões e os adeptos acreditam.

Sinal amarelo: As transferências anunciadas nos jornais, a um cadência louca e impossível de controlar. Quem conhece o futebol, sabe o efeito devastador que este circo contínuo de notícias, pode ter num balneário. É todo um ambiente de fim de festa, de final de ciclo. O perigo que existe é o de desmobilização dos jogadores que compõem o actual plantel, numa altura em que o Benfica ainda tem vários objectivos ao seu alcance, porque voltou a ser a melhor equipa do campeonato, aquela que joga, agora, o melhor futebol da Liga.

Sobre a contratação de Jardel, que parece preocupar tanto os adeptos de outros clubes que amavelmente visitam este blogue, devo reconhecer que o timing do anúncio foi mal escolhido. A contratação de Jardel devia ter sido anunciada há dez anos atrás, quando Vilarinho ascendeu à presidência do clube.

Sinal vermelho - Salvio. Um grande talento, que confirma no Benfica o seu imenso potencial. Não sei se a eleição da Liga de melhor jogador do campeonato do mês de Dezembro o contemplou ou se existe exclusividade com algum jogador, desde que se instituiu o prémio. O que sei é que o FC Porto vai tentar intrometer-se na futura negociação entre o Benfica e o Atlético de Madrid, no sentido de o desviar para o Dragão, na próxima época. Já tentou contratar o Salvio, antes do argentino se transferir para Madrid, voltou a tentar, quando o jogador foi emprestado ao Benfica e voltará à carga, no final da época, pelo que, furtivamente, já se começou a movimentar. É típico, é cultural e está na massa do sangue dos actuais dirigentes do FC Porto. Só existe uma forma de evitar esta hecatombe. Contratar o jogador, investir e rentabilizar. É um grande talento, já é um dos maiores destaques do campeonato e gosta do Benfica.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Um Olho à Benfica #44

"Blind Games"

Não quero gastar muitas linhas de texto. É sobre as escutas. Não as ouvi, nem as vou ouvir. O que sei delas, é suficiente para me dissuadir de perder tempo com conteúdos tão chocantes e tão previsíveis.

E, no entanto, custa-me a perceber por que razão as pessoas se deixam chocar. Há quantos anos, não sabíamos, não desconfiávamos, não denunciávamos, que era, no meio desta relevante podridão, que emergiram os poderes ocultos do designado "sistema".

Para mim, de facto, o que interessa na discussão dos conteúdos das escutas, nem sequer é a ineficácia da justiça. É o país que temos e não serei eu a alterar as coisas. A impunidade, posso lamentá-la, não posso mudá-la.

O que acho relevante, de uma vez por todas, discutir é até relativamente fácil de lhe fazer o escrutínio. Porque a questão das escutas, que muitos querem transformar num jogo entre Benfica e FC Porto, não é isso. É um derby entre a decência e indecência.
Quem está do lado da denúncia, bate-se pela decência, quem está do lado do encobrimento, situa-se na indecência. Tão somente isto. Mais nada. E o estar de um lado ou do outro, apenas qualifica as pessoas. Estabelece um direito, que é o da escolha e limita um dever, que é o da moralidade. O resto são cantigas, ou melhor, são "blind games".

sexta-feira, setembro 24, 2010

Um Olho à Benfica #43

SL Breves

- O presidente da Comissão de Arbitragem da Liga de Clubes abriu a boca e não só. Abriu também a caixa de Pandora. Expôs publicamente os erros de Olegário Benquerença e inaugurou uma nova forma de censura aos árbitros que erram, ao fim de semana. Compreendo as reacções de certos treinadores - por sinal de clubes que têm sido escandalosamente beneficiados neste início de campeonato - e principalmente entendo certas reacções descabeladas de alguns comentadores de futebol.

É que Vitor Pereira atacou o actual sistema de favorecimento desportivo da única forma que lhe doí, expondo publicamente os erros grosseiros e intencionais de certos árbitros em jogos de certos clubes, como o Benfica e o Marítimo, despudoradamente atacados, neste início de época, por arbitragens tendenciosas e preparadas.

Ao expor os erros, Vitor Pereira está igualmente a expor os árbitros, o que nunca tinha acontecido, dando-lhes sempre, até hoje, uma imoral cobertura e sensação de impunidade. Por isso é que a reacção às declarações de Vitor Pereira são quase desesperadas. Porque existe o sentimento de que os árbitros possam preferir arbitragens decentes e honradas a ver o seu bom nome espalhar-se ao comprido, de cada vez que Vitor Pereira, completar, publicamente, os seus ciclicos balanços, de cinco em cinco jornadas. Porque, qualquer árbitro, tenderá a pensar duas vezes, antes de prejudicar ou beneficiar deliberadamente um ou outro clube, porque passa a existir o receio de ser publicamente ridicularizado.

Trata-se de uma grande medida de Vitor Pereira, que pode beneficiar a arbitragem e os árbitros, especialmente aqueles que pretendam, de facto, um sector arrumado, profissional, competente e credível. E, no dia em que o Benfica for beneficiado por um ou mais erros de arbitragem, também apoiarei o seu escrutínio público, da parte do presidente da Comissão de Arbitragem da Liga. Para que conste. Ao contrário do que afirmou o treinador do FC Porto, não se abriu um precedente perigoso. Se as pessoas de bem o pretenderem, talvez se possa ter aberto, finalmente, a via para um futebol desportivamente puro e socialmente aceite.

- O treinador do FC Porto insiste no seu modelo de comunicação agressivo e sobretudo virado para declarações provocatórias ao Benfica. Gosto do estilo e francamente, penso que está a prestar um inestimável serviço ao Benfica. Estas provocações não devem ter uma resposta de Jorge Jesus nem de ninguém do clube. André Villas Boas diz, amiudadamente, que pretende descolar da imagem de novo Mourinho. O seu estilo e a sua intervenção dizem o contrário. Tudo parece uma imitação de Mourinho, na falsa arrogância e no estilo provocatório. Uma diferença gritante, que já todos deviam ter percebido, a começar por André Villas Boas. Mourinho só há um e os cemitérios de treinadores estão cheios de imitações baratas e gulosas de José Mourinho. As constantes provocações de André andam à procura de uma reacção do Benfica e, especialmente, do seu treinador. As declarações de André Villas Boas deviam ser lidas todos os dias pelos jogadores do Benfica, de forma pedagógica e lúdica. Com o seu estilo, se as pessoas do Benfica fizerem o seu trabalho de casa, André Villas Boas arrisca-se a transformar-se no grande motivador do plantel do Benfica. E de graça.

- O conselho de Administração da Sad do Benfica retirou a Rui Costa as suas funções de coordenador do futebol de formação do clube. E já nomeou um substituto. Em apenas três anos, é o quarto coordenador do futebol jovem. Onde está a continuidade? Será mesmo, após a construção de um magnífico centro de treinos e de estágios, no Seixal, a formação no Benfica, uma área sensível do clube? O que têm em comum estas quatro pessoas, que em três anos, conduziram o processo da formação no Benfica? A nomeação do novo responsável obedeceu a que tipo de perfil? E, principalmente, interessava saber se Rui Costa esteve, de facto, na reunião do Conselho de Administração da SAD que tomou a decisão, ou se apenas foi informado mais tarde, perante um facto consumado. E, se foi assim, como é que tomou conhecimento dessa decisão. Por email? Era importante o esclarecimento desta situação, até porque, já todos perceberam que o raio de acção de Rui Costa no futebol profissional está, há muito tempo, limitado pela intervenção do presidente, cada vez mais omnipresente e por isso, dificilmente colhe o argumento de que a decisão tende a defender o actual director-desportivo, que assim passaria a ter mais tempo para se ocupar do futebol profissional.


segunda-feira, setembro 20, 2010

Um Olho à Benfica #42

Preparados para a maratona!


A empolgante vitória do Benfica sobre o cada vez menos eterno rival, recentra o debate entre os benfiquistas: afinal quem é o sucessor de Di Maria? Naturalmente, o tempo aconselhará Gaitán, quando o médio argentino completar a sua adaptação a um novo estilo, a um novo campeonato e, fundamental, a um novo conceito de jogo. Enquanto isso não é possível, confesso que a possibilidade testada ontem, entre César Peixoto atrás e Coentrão, à frente, é uma solução que garante fiabilidade defensiva - Peixoto não é inapto defensivamente - e profundidade atacante.

Especialmente em jogos de campeonato como o de ontem, ou na Liga dos Campeões, é a solução que faz mais sentido e que equilibra melhor a equipa. Não sigo a tendência geral de que se perde o melhor lateral-esquerdo do mundo, por duas razões. Em primeiro lugar porque Coentrão não é o melhor lateral esquerdo do Mundo e em segundo, porque a afinidade táctica com Peixoto permite-lhe criar situações de embalo proporcionais à sua capacidade de desiquilibrar o adversário.


Além da magistral exibição de Cardozo, na activação de um jogo rápido e incisivo no flanco esquerdo, esteve a razão táctica para grande demonstração de poder e eficácia no ataque. E, claro, a melhor e mais completa exibição de Saviola, mais felino e menos ocasional no jogo,em todo este soluçante início de época, também ajudou à grande festança benfiquista sobre o Sporting.


Grande vitória que confirma que Jesus tem feito, desde o início, uma leitura correcta dos acontecimentos. Com os melhores jogadores, os que estiveram no Mundial e outros, em fase de retoma, a equipa vai estando mais perto do fulgor da época passada. Ainda a tempo de ganhar o campeonato. Basta que os adeptos se convençam de que um atraso de nove pontos não se recupera em duas ou três semanas. O que o Benfica deve conseguir é recuperar, até ao final da primeira volta, quatro ou cinco pontos em relação ao FC Porto e posicionar-se para uma segunda volta irresistível. E os adeptos devem convencer-se que a recuperação do Benfica no campeonato, não será uma corrida de cem metros, será uma maratona.

terça-feira, agosto 24, 2010

Um Olho à Benfica #41

Um aviso aos benfiquistas

A recente publicação - como sempre anónima - de um post, num outro blogue benfiquista, sobre a forma como alegadamente o presidente do Benfica não consegue separar negócios pessoais com interesses do clube, leva-me a contar um episódio, que se passou, num dos últimos dias, que antecederam a realização do anterior acto eleitoral do Benfica. Se bem se lembram, uma decisão de um Tribunal da Comarca de Lisboa, decretou uma providência cautelar que impedia que o presidente recandidato se apresentasse a eleições. Nessa mesma noite, o Movimento Benfica Vencer Vencer, que já tinha tomado a decisão de não se apresentar a eleições, pelas razões que todos conhecem, reuniu-se para debater a situação no clube e, sobretudo, a iminência de Bruno Carvalho se apresentar sozinho a eleições.

O mesmo Bruno Carvalho que, meses antes, suplicara pelo apoio de algumas das figuras emergentes do Movimento e que, depois, em campanha, acabou por escarnecer de algumas delas, para ganhar os votos fáceis de meia dúzia de apaniguados. O que é verdade é que a situação chegou a parecer assustadora, porque, no limite, escolher entre Luis Filipe Vieira e Bruno Carvalho, por muito que isso pudesse doer a alguns dos integrantes do Movimento, nem devia ser motivo para hesitar.

Acontece, porém, que essa reunião, mais do que qualquer outra, foi, para mim e outras pessoas que iniciaram o Movimento, esclarecedora. De um lado, os que defendiam, como eu, que tínhamos de avançar, se o tribunal confirmasse a impossibilidade de Vieira se recandidatar e, do outro, todos aqueles que estavam no Movimento, por ressentimento puro, contra o presidente do clube.

Como sabem, nunca escondi que não simpatizo com Luis Filipe Vieira. E até tenho razões pessoais para não simpatizar. Quando fui director de comunicação do Vitória de Guimarães, cheguei a pedir ao presidente do clube, autorização para não estar presente no jantar de direcções, num jogo entre ambos os clubes, para não ter de cumprimentar o presidente do Benfica. Fi-lo, porque não sou hipócrita e porque sei que a antipatia é mútua e, portanto, não gosto de disfarces de circustância.

Mas não confundo as coisas. O facto de não gostar pessoalmente de Luis Filipe Vieira, não pode legitimar qualquer espécie de ataque ao Benfica. E o que se discutiu, nessa noite, insisto por ressentimento puro, foi um ataque ao Benfica, porque algumas dessas pessoas, achavam que o Movimento não devia fazer nada, deixando que Bruno Carvalho se candidatasse sozinho e até apoiando juridicamente a insistência do candidato em ganhar as eleições na secretaria, permitindo que um novo aventureiro chegasse à presidência do Benfica, depois de Vale e Azevedo.

Recordo nessa noite a intervenção de Fernando Tavares, sempre uma das pessoas mais lúcidas do Movimento, ameaçando que ele próprio terminaria a sua intervenção ali mesmo, nessa noite, se algumas pessoas insistissem em confundir estratégia eleitoral com vinganças pessoais. Outras pessoas, como o médico João Varandas, o juiz Rui Rangel, alertaram para os perigos que seria deixar Bruno Carvalho sozinho, nas eleições. Pelo que, pela noite dentro, foi fácil encontrar uma larga maioria de benfiquista que decidiu ir a votos, se se confirmasse, no dia seguinte, a indisponibilidade de Vieira.

Conto isto, porquê? Porque Vieira tem muitos inimigos, demasiados inimigos. Muitos deles, por culpa própria, porque não dá valor às pessoas e a uma coisa que dificilmente se perdoa...lealdade. E muitos desses inimigos não lhe perdoam, até ao dia em que o virem sair do clube. Para mim, como sabem, isso pode nem ser uma tragédia, desde que o clube fique em boas mãos. E por isso é que os benfiquistas devem ser cuidadosos com a leitura que fazem do muito que é escrito, na imprensa e sobretudo nos blogues.

E principalmente, devem manter o sangue-frio, porque, curiosamente, estas coisas só acontecem quando o Benfica perde. E quando acontecem, tudo parece concertado. Há demasiados interesses à volta do Benfica, há demasiado ressentimento à volta do presidente do clube e, no meio, os benfiquistas que são muitos, são intolerantes com a derrota e influenciáveis com o desânimo.

Para tudo isto, há um remédio. É fazer o que eu faço e outros benfiquistas que conheço. Apoiar a equipa, apoiar o treinador, os jogadores e acreditar que ninguém perde campeonatos em Agosto. Quanto ao resto, acreditem no que vos digo, não se metam numa guerra que não é vossa. E nunca perder de vista que o adversário está situado a Norte e está a recuperar forças, enquanto os benfiquistas se divertem com este actual espectáculo fracticida, que ameaça dividir o clube e estagnar as conquistas.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Um Olho à Benfica #40

O negócio Ramires

O Benfica aceitou transferir Ramires para o Chelsea e executou um dos melhores negócios do ano, em Portugal. Isto é indiscutível e o mérito é de quem desenhou a operação, com um ano de antecedência. O presidente do Benfica - de quem não sou especial adepto - definiu os termos da negociação, com os investidores estrangeiros que tornaram possível ao Benfica contratar um craque de enorme categoria e numa fase ascendente da sua carreira.

O Benfica, inteligentemente, aceitou as regras do "empréstimo" e aceitou esta espécie de contratação "in vitro", para reforçar com qualidade, o seu plantel. O que aconteceu, neste último ano, é sintomático de que o Benfica estará em posição, no futuro, de fazer negócios semelhantes. O Benfica foi campeão, o jogador valorizou-se e os investidores ganharam o seu dinheiro, como era justo de acontecesse.

Além do mais, o Benfica realizou, no conjunto da operação, uma mais valia de nove milhões e meio de euros. Mais valia ficar quieto? Não creio. Imaginem, em simples exercicio, que cada um dos jogadores do Benfica, contratados daqui em diante, rendiam ao Benfica, o que Ramires rendeu. Talento, dedicação e milhões de euros. O negócio de Ramires, juntando o dinheiro investido, as boas exibições do jogador, a sua infulência no bom futebol e os milhões realizados, tratou-de um negócio criativo e percursor.

Aliás, este que o Benfica fez, devia ser um case-study para todos os clubes portugueses que se debatem com dificuldades e continuam a importar doses maciças de jogadores de qualidade duvidosa. Esses é que são negócios ruinosos, apenas para os clubes, completamente "vampirizados" por alguns dirigentes e agentes sem escrúpulos.

O que não vi ainda discutido, sobre Ramires e a sua venda, é que o Benfica enviou um sinal muito positivo para os investidores estrangeiros, que têm o dinheiro mas não confiam no futebol português e nos seus agentes. É que o Benfica é um clube que valoriza os jogadores e é um clube onde vale a pena investir. Agora não, mas no futuro, isto fará a diferença. E, principalmente, proporciona ao Benfica condições para descobrir um novo Ramires, investindo o Benfica na sua promoção desportiva e outros na aquisição dos seus direitos económicos.

Francamente, o presidente do Benfica já fez muitas coisas que mecerem a censura dos adeptos e dos sócios do Benfica, mas o negócio Ramires não é um caso de incompetência, mas sim de engenharia desportiva. Um grande negócio para o Benfica, como eu gostaria que fossem todos.

terça-feira, agosto 03, 2010

Um Olho à Benfica #39

Um novo Aimar, um novo Benfica!

No meio-campo do Benfica existe um novo painel de controlo. O homem que segura o comando é Aimar, começando e acabando nele, este novo Benfica. O modelo de jogo mantém-se, alteram-se as dinâmicas e o sistema. Sem Di Maria e Ramires para dar profundidade aos corredores laterais, Jorge Jesus demonstrou a sua astúcia e conhecimento do jogo. Diante do Aston Villa, transformou a equipa e a sua dinâmica numa oferta tacticamente mais variada, na criação e mais agressiva na recuperação da bola.

Dois argentinos emergem, na situação defensiva. O avançado Jara, permanentemente ligado à corrente do jogo, paradigma de um conceito adquirido de pressão, que transtorna o adversário logo na primeira fase de construção, ainda quando os seus jogadores de referência tentam orientar as ideias para uma nova hipótese de ataque. E Jara, promete vir a ser o avançado do campeonato português mais agressivo na recuperação da bola.

Desde a saída de Lisandro Lopez do FC Porto, que a Liga Sagres não tinha um jogador com o perfil de Jara. Com o tempo, aprenderá a desgastar-se menos, pressionando melhor. Mas é um grande reforço do Benfica e a sua utilidade transforma o ataque, e daí para trás, transforma a equipa.

No meio-campo, um novo Aimar. A imprensa não destacou convenientemente a exibição de Aimar, talvez porque não a percebeu. Neste Benfica, de 4-3-3, o médio argentino será uma espécie de Pirlo. Mais uma vez, Jesus, imagina uma coisa diferente da que toda a gente está à espera e tira da cartola uma solução, defensivamente equilibrada e ofensivamente mágica.

Em situação defensiva, é Aimar que coordena a equipa, colocando-se atrás de Carlos Martins, como interior direito e Airton, como interior esquerdo. Isto é o que faz o Milan, com sucesso, há muitos anos, com Gattuso e Ambrosini, jogando numa linha diferente de Pirlo, deixando que o médio criativo os organize. Ainda assim, a dinâmica do Benfica é muito superior à do Milan, o que dissuade qualquer tipo de comparação entre as duas equipas.

E o segredo do novo Benfica passa, muito, pela resolução técnica de Aimar e a sua disponibilidade para aceitar um novo desafio. Atenção, porque Aimar não será o seis clássico, o médio mais defensivo. A sua colocação numa linha ligeiramente atrás dos médios interiores, permite-lhe conhecer os movimentos do adversário, beneficiando das pulsões de Airton e da boa forma de Carlos Martins. E sobretudo, permite-lhe desgastar-se menos, na recuperação da bola, porque o trabalho "sujo" é feito pelos médios que estão à sua frente.

Além do mérito defensivo desta solução, existe o mérito principal de assegurar ao Benfica uma transição ofensiva limpinha, através do seu futebol liso, cristalino e preciso. Sempre que o Benfica recupera a bola no corredor central, o primeiro passe para um ataque rápido ou contra-ataque é de Aimar e é quase meia-hipótese de golo.

Este sistema e este novo Aimar, vão trazer mais novidades aos adeptos. Mas também há vítimas, do sucesso deste sistema. Uma delas será Javi Garcia, que não tem a mobilidade e a frescura de Airton, para jogar como interior - direito ou esquerdo - e por isso arrisca-se a perder o lugar na equipa. Não pela equivalência de talento que existe entre o médio espanhol e o jovem brasileiro, mas pela diferença de características.

Neste meio-campo, fica apenas a faltar um jogador. Chama-se Wesley e é um craque. Não daqueles craques que levam os adeptos ao delirio, mas daqueles craques que fazem qualquer treinador suplicar por eles. O presidente do Benfica viajou hoje para o Brasil, para tentar fechar a contratação deste médio e é bom que o faça rapidamente, porque há forças de bloqueio que pretendem inviabilizar esta contratação, já que reconhecem que se trata de um grande reforço, cirúrgico até, para o Benfica, prevenindo a iminente saída de Ramires.

E aqui, dou o braço a torcer, ou como é a preferência de um distinto comentador deste blogue, enfio a carapuça. O Benfica trabalhou bem, prevenindo a saída de Ramires. Porém, mais do que enfiar a carapuça, este é um caso em que devo tirar o chapéu.

O Benfica está a jogar o que ninguém pensou que viesse a jogar, desfalcado de Ramires e Di Maria e afinal, os nossos adversários deparam-se com este novo Benfica, ainda mais agressivo, mais demolidor e capaz de se reciclar tacticamente. E isso confunde-os e, nos bastidores, percebe-se um início de desespero. Porque, neste momento, a pressão está toda do lado dos nossos adversários e as próximas semanas prometem ser palpitantes na relação entre os dirigentes desses clubes e os adeptos das suas claques organizadas. Pelo meio, sucedem-se demissões, umas que são do conhecimento público e outras que já aconteceram e ainda não foram divulgadas. É uma espécie de Verão quente, que promete aquecer ainda mais, há medida que o Benfica for vencendo e convencendo.


segunda-feira, julho 26, 2010

Um Olho à Benfica #38

O Imperador!

Chegou com dois meses de atraso, como certas notícias para mulheres e sonhos desfeitos. A noticia de que David Luiz foi convocado para a selecção do Brasil. É mesmo assim, mano, ou melhor, Mano, com letra grande e merecido aplauso.

A primeira convocatória que nos chega do País-Mano (agora é assim) trouxe uma grande novidade para o David e uma péssima altura para os Golias do futebol europeu. Se o nosso melhor defesa já valia entre quarenta milhões - visão realista - e cinquenta - era o que Vieira dizia - agora, acabou de se valorizar de uma forma absolutamente inatingível.

Gosto deste seleccionador do Brasil, verdadeiro irmão de língua e agora Mano do coração. E fez-se justiça a um dos melhores "zagueiros" do Mundo e ao jogador de maior classe do campeonato português.