O primeiro milagre de JesusGostei da entrevista de Jorge Jesus ao jornal A BOLA. Devolveu-me alguma ilusão e sobretudo atingiu-me na esperança. Um treinador sem conflitos interiores e um homem que acredita nas suas ideias. Até pode morrer com elas, mas morrerá com as suas, não com as de outros. É o porta-estandarte de si próprio, não se bate pela convicção alheia, oferece-se ao sacríficio de morrer num campo de batalha escolhido por si.
Com esta entrevista, aliás, percebo que Jesus já escolheu esse campo de batalha. Será o estádio da Luz e será ali, durante toda a época, que Jesus travará o combate da sua vida e da sua carreira. Contra os lenços brancos, contra a desconfiança patológica dos adeptos do Benfica pelos treinadores que falem português, contra a insegurança de uma estrutura que escolheu, nos últimos anos, esconder-se sempre atrás dos treinadores.
Depois desta entrevista, todos percebemos, Jesus percebeu, que, em caso de derrota, perde sozinho, em caso de vitória, a fotografia será pequena para caber tanta gente.
É uma boa oportunidade para esclarecer a qualidade e a certeza de algumas fontes. Já escrevi sobre Jesus no Mágico, como todos se lembram. E como sempre acontece, escrevi no uso de informação que sempre tive a garantia de ser a mais fidedigna. Alguns comentadores decidiram atacar o mensageiro, porque a mensagem não lhes agradou. E foi discutida a seriedade das minhas fontes.
Pois agora, posso revelar o seguinte. Sobre Jesus estou muito bem documentado. Até várias semanas atrás, fui consultor pessoal de imagem e de comunicação de Jorge Jesus. Sei o que ele pensa sobre o Benfica, sei o que pensa agora e pensava há poucas semanas atrás Rui Costa sobre Jorge Jesus, sei porque Jorge Jesus foi agora contratado com um ano de atraso em relação à vontade inicial de Luis Filipe Vieira, sei como jogam as equipas de Jorge Jesus, sei o que ele se propõe fazer no Benfica, sei o que ele me disse, amiúdadas vezes, durante a época passada, sobre a equipa do Benfica e de como faria diferente se fosse treinador do clube e sei, por último, desde quando o FC Porto mantinha, ou pensava manter, sobre Jorge Jesus uma espécie de tutoria moral e quase jurídica. Sei da participação de Antero Henrique, director-geral da SAD do FC Porto nas negociações, há um ano atrás, que levaram Jorge Jesus do Belenenses para Braga, com o único objectivo de o contratar mais tarde para o FC Porto. Aliás, sei igualmente que os directores do FC Porto tentaram sabotar a transferência de Jesus para o Benfica até ao limite do moralmente tolerável. E sei, sobretudo, que Jesus está com uma vontade danada de ganhar.
Numa das minhas últimas conversas com Jorge Jesus, como consultor de imagem, disse-lhe que o desafio do Benfica seria o maior da sua carreira. Não lhe mencionei apenas o prestígio e grandeza do clube, falei-lhe das dificuldades de treinar o Benfica. Senti-o desafiado a demonstrar que pode ser o homem certo no lugar certo. Com o objectivo de testar a sua crença, a sua convicção, perguntei-lhe se não tinha medo de ser o homem certo na altura errada. O cemitério de treinadores ainda agora sepultou mais um homem de boas ideias e melhores convicções. Eu tenho a absoluta certeza de que Jesus é o homem certo. Tenho dúvidas se a altura é a mais indicada. Foi isto que lhe disse. Foi o que conclui do meu exame de consciência.
Esta entrevista, para mim, foi o prolongamento da nossa última cimeira. Acima das desconfianças dos outros, está a vontade própria. Uma sede de vitórias e um discurso aprumado. O discurso, a imagem, a sua colocação perante as câmaras de televisão, a forma como demonstrava firmeza nas palavras e insegurança nos gestos, foram aspectos que Jorge Jesus foi tentanto corrigir, nos últimos meses. Do ponto de vista da comunicação e da gestão da sua imagem, Jesus não é um projecto acabado e por isso deve ser defendido pelo clube e pelos seus profissionais. Se o vão fazer ou não, isso é lá com eles. O trabalho que ainda consegui fazer levou-o ao Benfica e levou-o a conseguir uma boa imprensa. Agora, tudo será diferente. Na escala e na proporção do que forem os resultados.
Jorge Jesus é uma pessoa genuina, boa e competente. Muito competente. Gostei de trabalhar com ele, de colaborar com ele, de o encaminhar para as mensagens correctas. Com Jorge Jesus é um trabalho que nunca se esgota, porque pode sempre descarrilar, especialmente, se o resultado não o favorecer. O Benfica e o seu director de comunicação devem olhar para Jorge Jesus como uma planta que deve ser regada todos os dias. E, sobretudo, não aceitar uma exposição mediática que o desproteja e o desloque do seu meio ambiente preferido.
Ter Jorge Jesus no Benfica é ter mais um motivo para desejar que o Benfica vença. Há quatro meses atrás disse-lhe: «Estes próximos meses serão cruciais na sua carreira. Ou é agora ou nunca. Não lhe garanto um contrato com um dos grandes clubes portugueses, mas garanto-lhe que ficará mais perto de o conseguir.» Conseguiu e acho que escolheu o melhor. Assim o Benfica saiba merecer essa escolha.
Meu caro Jorge, as minhas desconfianças em relação a alguns dos aspectos que discutimos sobre a orgânica interna do Benfica, mantêm-se actuais. Mas uma coisa lhe digo. Se me perguntam, se eu acredito? Eu acredito. Podemos ser campeões na próxima época? «Yes, we can». Por sua causa e apesar do resto.
PS: Quando alguém decidir rebater os meus argumentos, de cada vez que o assunto for Jorge Jesus, talvez seja conveniente espreitar de novo este texto. Talvez assim se possa evitar o depósito de mais algumas asneiras na blogosfera benfiquista.